sábado, 30 de dezembro de 2017

A sabedoria dos contos de fadas


Armindo Teixeira Mesquita


UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal) e Presidente do OBLIJ (Observatório da Literatura Infanto-Juvenil)

Introdução

Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes.

Clarissa Pinkola Estes
               

A arte de contar histórias é remota
1. Encontramo-la em todas as partes do mundo. Aliás, nos velhos tempos, as pessoas do povo sentavam-se, sobretudo aos serões, à volta da fogueira para descansar do árduo trabalho diário, para conversar e para contar histórias
Sabe-se como é importante para a formação da personalidade da criança ouvir muitas e belas histórias. Pois, escutar histórias é uma das primeiras experiências literárias do ser humano. Quando a criança escuta um conto, a sua mente está a produzir outro. Isto vem reforçar a ideia de que, por um lado, a narrativa oral opera como um veículo de emoções e, por outro lado, inicia a criança na palavra, no ritmo, nos símbolos, na memória, desperta a sensibilidade, conduzindo à imaginação através da linguagem global. Neste sentido, a literatura apresenta-se como meio de manifestação de cultura.
Durante séculos, a aprendizagem fazia-se através da transmissão oral, porque não havia livros, nem a infância era concebida como hoje. Os valores, os costumes e as regras sociais eram transmitidos, graças aos mitos, aos contos e a outras formas de comunicação oral.
Com o aparecimento da imprensa, em meados do século XV, criou-se um novo mundo simbólico e uma nova tradição: a leitura, já que os jornais e os livros tornaram-se os grandes agentes culturais dos povos. As fogueiras foram ficando para trás. Os velhos contadores de histórias foram sendo esquecidos. No entanto, as histórias continuam associadas à nossa cultura, através dos livros e das suaves vozes das mães e das avós, para encantamento das crianças.
O conto de fadas (literário) surgiu na Europa da Idade Moderna como tradição oral levada ao público infantil. As histórias eram contadas de um adulto para uma criança, registando lições, experiências, em que geralmente os heróis superavam situações desfavoráveis através de algum segredo mágico. Por se tratar de narrações fictícias, as acções dos contos de fadas desenrolam-se em países imaginários, povoados por objectos e personagens mágicos e estranhos, onde o narrador e o seu público não acreditam na realidade da história.
A grande aceitação do conto de fadas teve, pelo menos, duas consequências importantes sobre a evolução da literatura infantil. Em primeiro lugar, impôs o predomínio do lúdico sobre o instrutivo. Em segundo, contribuiu para a definição de um género especificamente voltado para as crianças.





Porquê contar contos de fadas às crianças?

Pessoas de diferentes idades conhecem e encantam-se com os contos de fadas. Plenos de significados, com estrutura simples, histórias claras e personagens bem definidas nas suas características pessoais (facilitando a identificação delas em bom ou mau, bonito ou feio, forte ou fraco, rico ou pobre, etc.), atingem a mente da criança, entretendo-a e estimulando a sua imaginação, como nenhum outro tipo de literatura talvez seja capaz de fazer. As crianças gostam muito dos contos de fadas, recomendados geralmente a partir dos 4 ou 5 anos.
Embora distantes das narrativas originais, os contos de fadas continuam vivos, povoando a imaginação infantil e alimentando o seu espírito. Ao mesmo tempo que os contos podem auxiliar a criança a superar conflitos, que são inerentes ao seu processo de desenvolvimento, constroem um sistema metafórico e simbólico. Através do tempo, os contos de fadas mantêm o seu poder transformador e a sua magia. Magia que se revela não só na sua narrativa, como também nas transformações que desencadeia naquele que escuta ou naquele que narra um conto. Aliás, a magia de um conto encontra-se no seu acto de contar:
O ritual que se exige, os silêncios que se ouvem, o cenário que nos envolve, a forma do olhar, a expressividade das mãos são elementos indispensáveis a essa vivência profundamente solidária que é o contar/ouvir um conto. A voz que veicula a história tem uma importância fundamental; não só ela, mas também a postura física do contador constitui uma peça a ter em conta. Esta atmosfera mágica indispensável toca profundamente o(s) ouvinte(s)».

(Veloso, 1994:45)
               



As crianças bebem as palavras que saem da boca do contador. Para isso, é preciso haver uma cumplicidade entre a criança e o narrador.
Um dos prazeres do conto é precisamente a eliminação das fronteiras entre o (mundo) possível e o (mundo) impossível, entre o real e o imaginário. Guiados pela mágica expressão inicial: «Era uma vez...»; crianças e adultos soltam as amarras para embarcarem, de imediato, no imaginário, numa aventura simbólica na companhia de muitas personagens que, embora sejam da ficção, parecem familiares. Tal como acontece com as crianças, as personagens vivem grandes emoções que podem ser compartilhadas. Parafraseando Bettelheim, a criança compreende intuitivamente que sendo irreais, estas histórias são verdadeiras; os feitos que narram não existem na realidade, mas estão presentes como experiência interior.
As crianças entram ainda muito facilmente nesse mundo imaginário, onde já têm um pé, porque todos os dias inventam histórias extraordinárias nas quais elas próprias são os heróis. Fazem falar os objectos, os animais, os brinquedos, etc. Para as crianças, nada é estranho, tudo é lógico. Mais ainda: tudo as fascina.
Os adultos encontram também, nestas narrações, o eco do seu mundo interior e dos seus sonhos. Por isso, não é difícil deixar-se levar pela história, em que o aspecto das aventuras fantásticas e as intrigas os cativa. Toda a gente se vê reflectida e cada um pode encontrar, nos contos, o que quer e o que necessita, de acordo com as suas preocupações.
As personagens são muito descritas, ao ponto de podermos entrar na sua pele, de viver as suas experiências. Elas são boas ou más, nunca ambas as coisas ao mesmo tempo como pode acontecer nos seres humanos da vida real. Por exemplo, uma irmã é honrada e trabalhadora, enquanto que as outras são malvadas e preguiçosas. Uma é formosa e as outras são feias. Um dos pais é bom o outro é mau.
Ao apresentar caracteres totalmente opostos, não pretendem provocar uma conduta adequada, mas ajudar a compreender, mais facilmente, as diferenças entre ambos (por um lado assim funciona a mente da criança, polarizando entre bom e mau). A ambiguidade só se estabelece quando já se adquiriu uma personalidade firme sobre a base das identificações positivas.
Por outro lado, a criança não se identifica com o herói bom pela sua bondade, mas porque a sua condição de herói a atrai muito. Aliás, o que mais lhe interessa não é bondade ou a maldade dos intervenientes da história, mas a inteligência do herói que, geralmente, é o ser mais pequeno e mais frágil (tal como a criança) e que, graças ao seu o engenho, consegue vencer o inimigo (com características físicas bem mais fortes do que as suas).
Neste sentido, o conto de fadas é único, é uma obra de arte, por isso, é susceptível de várias interpretações. O significado mais profundo deste tipo de contos será distinto para cada criança (e inclusivamente para a mesma criança) em diferentes períodos da sua vida. O que faz com que um determinado conto seja mais importante do que outro para uma determinada criança e numa idade concreta, depende do seu estado de desenvolvimento psicológico e dos problemas mais estimulantes daquele momento. Os contos de fadas são tão ricos para uma criança de 5 anos como para uma de 12 anos: as suas interpretações não serão, logicamente, as mesmas.

Fonte: www.cervantesvirtual.com

sábado, 23 de dezembro de 2017

Dom Antônio Muniz preside celebrações de Natal

Confira a programação das missas na Catedral e no Santuário Virgem dos Pobres
O arcebispo de Maceió, dom Antônio Muniz, vai presidir a Missa da Vigília de Natal e a celebração do dia no Santuário Arquidiocesano Virgem dos Pobres. No domingo (24), a Missa da Vigília será às 22h e na Solenidade do Natal, no dia 25 de dezembro, às 10h.
"Natal é festa sem fim, é festa da vida. E a melhor forma de celebrar é enxergar o Menino Deus no próximo, ajudando e fazendo o bem, e participar da Ceia do Senhor", afirma o arcebispo. "Quero desejar um santo e feliz Natal ao povo de Deus e que sejamos, hoje e amanhã, instrumento de salvação para que aconteça o Reino de Deus".
Catedral e Igreja São Gonçalo

Às vésperas do Natal, a celebração também acontece às 19h na Catedral Metropolitana, no Centro de Maceió, e às 21h na Igreja São Gonçalo, no bairro do Farol. Na segunda-feira (25), os fiéis podem participar da Missa na Catedral Nossa Senhora dos Prazeres às 17h.

Fonte: www.arquidiocesedemaceio.org.br

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Carta de Pero Vaz de Caminha


A Carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao rei D. Manuel sobre a descoberta do Brasil, é o documento no qual Pero Vaz de Caminha registrou as suas impressões sobre a terra que depois viria a ser chamada de Brasil. Esta carta é o primeiro documento escrito da história do Brasil.
Senhor:
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado.
 Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte, haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome - o Monte Pascoal e à terra - a Terra da Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem as dez horas pouco mais ou menos.

Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si.

E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.
Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto.
Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos.
Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
Fonte: www.sohistoria.com.br



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

SAUDADES DE MONSENHOR MURILO

Monsenhor Murilo de Sá Barreto
Por Renato Casimiro

Alguém, em algum lugar no passado, disse com rara felicidade uma dessas expressões que ainda nos toca bem, de perto: “o Vigário do Nordeste”. Muito provavelmente, ao observador atento, tratava-se de designar alguém que ao longo de várias décadas alçara a credibilidade, manifestara a dedicação amorosa e cumprira fielmente o zelo pastoral, características marcantes dos que abrem o coração para missionar em nome do Cristo. Penso que isso, na melhor parte, sintetiza a razão de ser de Francisco Murilo de Sá Barreto entre nós. O tratamento, aplicado a quem tantos benefícios deixou na memória de seu povo, é sinal de uma honra que se confere a privilegiados dentre a sua gente. Não um tratamento burocrático, mas uma menção afetuosa e permanente entre todos os que entenderam a sua missão vivificadora.
Nesse mês, lembramos Pe. Murilo na frieza do calendário que nos faz recordar do tempo de sua ausência. Depois daquele trauma horroroso, em quatro de dezembro de 2005, esses doze anos nos fortificaram na crença da imensa felicidade que foi conhecê-lo, de tê-lo junto de nós, para receber de sua mente, de seu coração e de seus braços, parte das energias que nos promoveram a uma comunidade melhorada, mais solidária e fiel a esse desígnio de acolhida e abrigo em romaria. Não é possível descrever sumariamente o longo, proveitoso e eficiente serviço para consolidar o ciclo de Romarias de Juazeiro do Norte, a despeito das imensas reservas que ele viveu, historicamente.
 Superou-as todas e nos legou a certeza maior de que a Igreja não tardaria a reconhecer a grandeza da religiosidade do povo romeiro. Nesse sentido, e ao tempo em que nos encontramos, para recordar tantos fatos relevantes recentemente acontecidos, sempre nos ocorre a sensação de que nos lembramos desse ausente-presente, nas saudades que cada um refere, pelo amigo que se foi. Essas saudades que naturalmente sentimos em sua ausência são sinais evidentes do quanto nos fazem falta a sua palavra esclarecida, o gesto concreto e preciso para superar tantos obstáculos, a vigilância esmerada que sempre parecia nos proteger, em tanto momentos, como vimos nascer e crescer na caminhada que empreendemos para construir essa civilização sertaneja.
 Pelo exemplar serviço à nossa Igreja, e à comunidade a que foi tão e exemplarmente servidor, Pe. Murilo de Sá Barreto é alvo acrescido às nossas invocações, a situá-lo dentre os nossos santos, os credores maiores de nossas reverências, orações e crenças. Sabe disso o povo nordestino que tantas vezes foi solidário ao seu chamamento, à devoção de Nossa Mãe das Dores e aos rogos do santo padrinho do Juazeiro, fortalecendo essa vocação de missionário. Cada um de nós vai lembrar, enquanto for possível, o papel importante que cumpriu, à frente da principal paróquia desse Juazeiro do Norte. Felizmente, entronizado em nossos corações, ele é parte dessa fortaleza que nos entusiasma e que nos acalma, é parte dessa esperança que nos anima, e é parte do futuro que nos aguarda.
(Informativo Romaria, Dez., 2017)


domingo, 3 de dezembro de 2017

Cabelos côr de prata

Poeta  Rogaciano Leite
Meus cabelos cor-de-prata

são beijos de serenata
que a lua mandou pra mim.
Os meus cabelos grisalhos
são pingos brancos de orvalho
num tinteiro de nanquim.


Estes meus cabelos brancos
que hoje são da cor dos bancos
solitários de um jardim,
já sentiram muitos dedos
e ouviram muitos segredos
que elas contavam pra mim.


Se hoje, estão desbotados
é porque foram beijados
com muito amor e emoção
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
estão da cor do algodão.


Eu fiz tanta serenata
que a lua, desfeita em prata,
mandou mil beijos pra mim.
E os beijos foram tão puros
que os meus cabelos escuros
ficaram brancos… assim!



terça-feira, 21 de novembro de 2017

OUTONO DE VERÃO

Outono... São as folhas secas... Com elas, o vento brinca...
Naquele pedaço de chão, todo o horizonte cortado de aridez, para os fortes que vingam, as horas passam pouco espaçadas, sem a sutileza da continuidade dos minutos, segundos que o tempo próprio esconde. Este, sentido, imaginado como grande senhor que ceifa vidas, amalgamado ao destino e à rudeza dos muitos homens feitos de sandálias de couro, cacimbas d’água, de suor seco e os olhos lânguidos, de esperança triste. O sol e a lua eram o dia.

 O menino sonhava com chuva, paisagem que se enche de verde, charcos enormes de piabas prateadas, anzol e linha a fisgar curimbatá ou o gigante tucunaré, doce de umbu, canto de bem-te-vi... Aprendeu nos livros velhos, uma nova palavra, incomum para o vocabulário de família.

 — Pai, o que é outono? — disse o menino.

 O homem olhou para o filho com certa ternura; curvou-se para que pudesse falar diretamente em seus olhos.

 — Outono... São as folhas secas... Com elas, o vento brinca...

 O menino sorriu. Abraçou o pai e saiu a brincar na terra argilosa, de pó fino, sob sol castigante, a rabiscar os nomes que aprendera. E era o sol a dourar a pele daquela gente, com foices, enxadas, lâminas afiadas a sangrar fendas d’água onde havia mais e mais escassez. Era o tempo estático a desenhar vidas, golpeadas de sofrimento no céu limpo.

O pai  comoveu-se daquela inocência, despojou-se da lida, e saiu também a brincar. Pôs o menino nos ombros. Os dois riam. Era um instante raro para esquecer a dor e vencer o dia. Para o homem que acalentava a criança, a primavera era efêmera: flor de cactos mandacaru. O inverno era a chuva. Ela trazia o frio. Aquele rincão era feito de verão pleno. Estação única. O outono tinha apenas cheiro de fruta: cupuaçu, sapoti, graviola, bacuri, violeta juçara, buriti, oiti, ingá, carambola doce em estrela, manga-rosa, banana-maçã, murici, ciriguela, carne de pitomba, caju... Sabor dos sertões. O outono era a fartura que trazia a chuva, as águas de março ou qualquer mês, a invadirem o tempo seco.

O menino abria os braços abarcando o seu mundo, distante das histórias contadas nos livros antigos que o pai lhe dava. De olhos fechados, ele imaginava castelos, aventuras... Ele, pequeno príncipe de um grande deserto, conhecedor de saberes seus, da sua gente. Na proteção do pai, era feliz. Esse, volta à lida: colher água do poço, dar comida ao gado magro, lavrar a terra estéril, pingada do sal das lágrimas... A criança desenha seus sonhos na terra. E um sonho maior ganha contorno, nos traços infantis do que seria uma figura feminina. Eram apenas os dois... É o tempo em que no espaço, as nuvens se acinzentam, clarões anunciam mudança. O vento se encorpa e em rodopio levanta folhas amarelas, roídas pelas saúvas. O menino se encanta... Enfim, conhecia o outono.


Fonte: www.static.recantodasletras.com.br

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Nos 128 anos da República, Marechal Deodoro volta a ser capital de Alagoas

Marechal Deodoro foi fundada em 1611 com o nome de povoado de Vila Madalena de Subaúma.
Segundo Renan Filho, transmissão da sede do Governo resgata memória de um dos alagoanos mais importantes da história do Brasil
Texto de Petrônio Viana
A primeira capital do Alagoas, Marechal Deodoro, voltou a ser sede do Governo do Estado por mais um dia. A transferência da capital para a cidade histórica foi oficializada nesta quarta-feira (15) pelo governador Renan Filho, em comemoração aos 128 anos da Proclamação da República. A cerimônia foi realizada no Palácio Provincial de Marechal Deodoro, com as presenças do prefeito Cláudio Roberto Ayres da Costa, o Cacau, secretários de Estado, prefeitos de vários municípios, vereadores e autoridades de diversos segmentos.

Para o governador Renan Filho, a transmissão da capital representa o resgate de uma das personalidades mais importantes da história de Alagoas e do país, o proclamador da República e primeiro presidente do Brasil, Manoel Deodoro da Fonseca.
“Marechal Deodoro é uma cidade muito importante para a história da República, uma vez que aqui nasceu seu proclamador. Hoje, de Marechal, mandamos uma mensagem para todo o Estado de Alagoas e para todo o Brasil. Uma mensagem da necessidade do avanço democrático do país, da consolidação diária da República, da superação da crise econômica com a retomada da economia brasileira, da necessidade de soluções para essas dificuldades em que vivem os brasileiros. Ressaltamos ainda, nesta data, os valores da igualdade, da democracia e dos direitos humanos, que devem estar sempre presentes em nossas ações”, afirmou o governador.

Marechal Deodoro foi fundada em 1611 com o nome de povoado de Vila Madalena de Subaúma. Foi a primeira capital da província de Alagoas, entre 1817 e 1839, quando a sede administrativa da província passou a ser Maceió. Em 1939, a cidade recebeu o nome atual, em homenagem a seu filho mais ilustre.

 O prefeito de Marechal Deodoro, Cláudio Ayres, reverenciou a história de bravura de Manoel Deodoro da Fonseca e a importância, para o povo deodorense, das comemorações do 15 de Novembro.“No dia de hoje, comemoramos também os 190 anos de Manoel Deodoro da Fonseca e massacrares recebe o Governo de Alagoas para honrar sua memória. Celebrar a história de Deodoro da Fonseca é celebrar a força do nosso povo”, disse o prefeito.

Em Marechal, o governador Renan Filho e o prefeito Cláudio Ayres participaram do hasteamento das bandeiras do Brasil e de Alagoas e oficializaram a transferência da sede do Governo para o município. Renan Filho lembrou ainda das obras e investimentos do Estado na cidade, algumas delas inauguradas nesta quarta-feira.

“Eu destaco duas ações do entregues hoje aqui em Marechal. A primeira, um investimento do Estado por meio do programa Pró-Estrada, que reconstruiu todo o acesso ao município, uma cidade importantíssima pelo seu componente histórico, cultural gastronômico, pelas suas belezas naturais, muito forte pela sua capacidade de atrair turistas. De modo que o Pró-Estrada chegou aqui para potencializar essa característica”, explicou Renan Filho.

“Vamos lançar também, ao lado do prefeito, uma obra de abastecimento, executada com recursos federais viabilizados pela Funasa por intermédio do senador Renan Calheiros, que será a maior obra hídrica executada por um município no Estado de Alagoas. Dessa forma, Marechal Deodoro se prepara cada vez mais para oferecer melhoria na qualidade de vida de seu povo”, afirmou o governador.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Memorial Frei Damião

Memorial de Frei Damião - Guarbira, Paraiba
O Santuário Memorial Frei Damião, situado na cidade de Guarabira (Paraíba), é um projeto arquitetônico composto de um museu e uma estátua, em homenagem ao frade capuchinho Frei Damiãode Bozzano, um missionário do Nordeste brasileiro. Atualmente é considerada a terceira maior estátua do Brasil.
A inauguração, em dezembro de 2004, contou com a presença de mais de 50 mil fiéis.[2] Foram realizadas parcerias entre a Diocese de Guarabira, a prefeitura de Guarabira e o governo do estado da Paraíba em sua edificação.
O santuário foi projetado pelo Arquiteto Alexandre Azedo e o Memorial Frei Damião, de autoria do Arquiteto paraibano Gilberto Guedes. A construção da obra foi iniciada em 27 de março de 2000. O Santuário foi arquitetado pela Diocese de Guarabira e também foram muito importantes para a sua construção, a então prefeita de Guarabira (2000) Léa Toscano, e seu marido o deputado estadual Zenóbio Toscano.
O local foi transformado em santuário através de um decreto emitido pelo então administrador apostólico Dom Jaime Vieira Rocha em 2007, tendo como primeiro reitor o padre Gaspar Rafael Nunes.
Em 29 de abril de 2013, Dom Lucena, bispo de Guarabira entregou o Santuário de Frei Damião aos cuidados da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, da qual o Servo de Deus Frei Damião fazia parte. Nomeando reitor o Frei José Walden de Oliveira, OFMcap. Atualmente, administra o local o padre José Renato da Ferreira de Oliveira, está sendo o quinto reitor do Memorial.

Situação geográfica

O santuário fica situado em Guarabira, no Piemonte da Borborema, a 98 quilômetros da capital, João Pessoa, no estado da Paraíba, na Serra da Jurema (Nome denominado ao pico onde se encontra o Memorial).

Atrações turísticas

A principal atração do Santuário é a estátua do Frei Damião que tem cerca de 34 metros de altura e pode ser vista de qualquer ponto da cidade. Do alto da Serra da Jurema, é possível ver toda a cidade, e algumas cidades próximas situadas num raio de 50 quilômetros.
O monumento possui ainda um museu,que foi montado com a consultoria da Fundação Joaquim Nabuco, casa de ex-votos, praça de celebração, capela e Via Sacra.
O museu do Santuário de Frei Damião além de objetos pessoais, fotografias e artigos religiosos dispõe ainda de várias estátuas em tamanho natural, as quais reproduzem aspectos da vida do Santo das Missões. Por decreto da lavra do Administrador Apostólico da Diocese de Guarabira, Dom Jaime Vieira Rocha, o Memorial de Frei Damião, no final de 2007, foi elevado à categoria de Santuário Diocesano. Com a medida lá podem ser realizados casamentos e batizados.
Acesso
Os dois acessos ao Santuário são pavimentados e iluminados. Do alto, pode-se ver toda a cidade de Guarabira. Ao longo do percurso, é possível ver todas as estações da Via Crucis, fruto do trabalho de artesões locais, além do Cruzeiro, que foi erguido bem antes do Memorial, na década de 60.
Posição.
Com aproximadamente 34 metros de altura o memorial atrai turistas de vários locais e é a terceira maior estátua do Brasil, superada apenas pelo Cristo Redentor e pelo Alto de Santa Rita de Cássia no Rio Grande do Norte. Se vivo fosse Frei Damião, estaria hoje com 119 anos. O Nordeste, a região que ele escolheu para viver e evangelizar o seu povo, nunca o esquecerá


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Lincoln Penna lançou biografia de Floriano Peixoto

Governo de Alagoas provoca mergulho nas raízes históricas do Estado em mais uma ação na agenda dos 200 anos
Livro “Floriano, a encarnação da República’, é uma biografia do segundo presidente da República, nascido em Ipioca e consagrado com uma vida política memorável.  (Fotos: André Palmeira)
Texto de Julianne Leão
Dentro das comemorações do bicentenário de emancipação política de Alagoas, o Memorial à República  recebeu a presença ilustre de Lincoln Penna, na noite de quinta-feira (19). O historiador e professor de História é também bisneto de Floriano Peixoto e fez questão de realizar o lançamento de seu livro na Terra dos Marechais. Intitulado ‘Floriano, a encarnação da República’, a obra é uma biografia do segundo presidente da República, nascido em Ipioca e consagrado com uma vida política memorável.

O secretário de Estado do Gabinete Civil, Fábio Farias, frisou a bravura, determinação e coerência que Floriano Peixoto teve durante sua carreira política. "Ter essa figura histórica em meio as comemorações do bicentenário alagoano é, sem dúvidas, um marco cultural de resgate às raízes de nossa história", comemorou Farias.

Conforme o autor da biografia, o diferencial da obra para tantas outras sobre Floriano Peixoto é que essa edição tem um quê de originalidade. "Eu trago ricos detalhes, dados e memórias familiares", comenta Penna.

Durante a solenidade de lançamento, Jorge Peixoto foi um dos visitantes que tirou uma dúvida pessoal que carregava consigo. "No último dia de sua presidência da República, Floriano Peixoto realmente desceu as escadarias, pegou um bonde e foi para casa?", questionou o ouvinte.

A resposta dada pelo bisneto do Floriano Peixoto foi positiva. "Floriano costumava utilizar os transportes públicos diariamente. E ele tratava isso com muita naturalidade", revelou Lincoln Penna.

Essas e outras particularidades de Floriano poderão ser conferidas no livro, que já circula em grandes livrarias brasileiras. Penna, no entanto, fez questão de deixar alguns exemplares para serem distribuídos em escolas e bibliotecas públicas de Alagoas.

"Espero que os alagoanos leiam a história, que foi contada por mim com muito carinho, e conheçam um pouco mais desse alagoano que ajudou a construir a história do Brasil", finalizou Lincoln Penna.

Fonte: www.agenciaalagoas.al.gov.br


domingo, 22 de outubro de 2017

CINEMA PARADISO E A BELEZA DA SÉTIMA ARTE, DO BEIJO E DA AMIZADE


Alfredo e Totó, o operador do cinema e o aprendiz
Um filme encantador, de Giuseppe Tornatore, que conta não só um pouco da história de amizade entre um garoto curioso e esperto e um projecionista com mais de 40 anos, mas da beleza e encanto do cinema. O filme é uma obra prima de 1988 e colecionou vários prêmios, dentre eles o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1990; o Globo de ouro e o Festival de Cannes.

Em Giancaldo, pequena cidade da Sicília, antes da chegada da televisão, Totó (Salvatore Cascio) se encanta pelo cinema local - o "Cinema Paradiso" e ali inicia uma divertida e bela amizade com Alfredo (Philippe Noiret), único projecionista do cinema. Curioso, Totó adora observar o trabalho do projecionista e desde então não esconde interesse em aprender todo o processo da projeção. Mesmo cansado da teimosia e persistência do menino, Alfredo, enfim, explica seu trabalho na prática, mas deseja e aconselha que o garoto busque uma profissão melhor.
Alfredo o operador cego e Totó, novo operador
Já adolescente, Totó (Marco Leonardi), un bel ragazzo, vive o seu primeiro (e único) amor, com a linda Elena. O namoro não prossegue, mas Totó não a esquece e, já adulto e maduro (Jacques Perrin),passa a ter apenas mulheres em sua vida, mas não um amor como o de Elena.

Cinema Paradiso é um beijo no coração dos apaixonados por cinema, é a "sensação de paraíso" que a sétima arte nos proporciona por alguns instantes. E ainda tem a canção maravilhosa do grande maestro e compositor italiano Ennio Morricone, que fica levemente presa na memória, por longos dias depois de ver o filme.pelo Padre da Igreja onde ele foi Coroinha). É o presente de Alfredo para o seu amigo

Acrescentando o texto: Era um época maravilhosa onde o cinema era tratado como divertimento e reunião entre a comunidade em todo interior do Brasil. A exemplo do filme:  em Anadia – Alagoas, confirmando o conteúdo do filme, a maioria das pessoa levavam cadeira para assistir ao filme.O filme mexicano Direito de Nascer, produzido pela Pel-Mex, com Pedro Armendariz, foi um sucesso estrondoso, e alguma pessoas assistiam sessões consecutivas. 

Os filmes de Faroeste, Piratas, Comédias com Oscarito e Grande Otelo e Seriados eram aceitos e serviam de comentários durante uma semana. Cinema Paradiso, retrata tudo que aconteceu com muita fidelidade.



Enfim, graças o cineasta italiano Giuseppe Tornatore  que teve a capacidade e sensibilidade  de nos proporcionar momento de encanto e beleza. Giuseppe, merece uma estátua e reconhecimento por todos aqueles que amam o cinema. Hoje, agregaram as sessões de cinema com pipoca e Coca Cola, filmes violentos, tornando o ambiente poluido e insuportável. Tempos modernos !

Fonte: www.lounge.obviousmag.org

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Carnaval de Juvenal Lopes

Estamos  postando novamente este LP  “O Carnaval de Juvenal Lopes”, forrozeiro autor de grandes sucessos que marcou a história do forró pé de serra e que teve suas músicas gravadas por artistas como Clemilda, Gerson Filho, Mestre Zinho, Marinês, Zetinha, além de vários outros forrozeiros autênticos Brasil afora.
Juvenal Lopes reúne neste LP um repertório com 12 composições, todas de sua autoridas quais duas são em parceria com Alves Damasceno e uma com Juca Santos. Em “O Carnaval de Juvenal Lopes” voce vai encontrar composições como “Saudoso Carnaval” na qual Juvenal já relembra a tradição das comemorações na Rua do Comércio, da serpentina e da lança perfume e de figuras como Rubens Camelo, Ricardo Santa Rita, Mario Braga e Major Bonifácio entre outras figuras que verdadeiramente fazia o carnaval da outrora Maceió que Juvenal nos rememora e que hoje já não existe.
Juvenal era uma figura do povo, um artista que cantou seu povo e sua gente como poucos, seja compondo, maxixe, samba, forró, baião, coco, frevo, marchinhas, um tinha um talento digno dos grandes mestres da MPB e conhecia perfeitamente cada gênero, além de rancheiras (argentina) que imperava a sua época, além do folclore alagoano. Juvenal era um boêmio daqueles que hoje basicamente não existe mais, com ele não existia tristeza como em “Vilma Meu Amor” que ele manda essa tristeza embora, pois é carnaval.
Todas as faixas são excelente mas contudo vale também ressaltar a faixa “O Direito da Mulher” que a época já criticava a postura machista que não respeitava o direito da mulher e que estranhamente hoje ainda é agredida , tratada pejorativa pelos compositores e bandas disto que chamo de ultraje de forró, que é cantado pelas bancas do chamado forró eletrônico, sem que haja uma manifestação do movimento feminista nordestino e brasileiro.
Infelizmente, hoje Juvenal Lopes nos faz muita falta, pois não tenho dúvida que se vivo estivesse estaria junto a nós defendo o forró, o frevo, o samba e todas as manifestações verdadeiramente brasileira.
Por José Lessa, Presidente da Associação dos Forrozeiros de Alagoas

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Mutum-de-Alagoas: o regresso de um nordestino

Mutum-de-Alagoas. Foto: Anderson Stevens /Folha de Pernambuco
Espécie rara foi reintroduzida na Mata Atlântica alagoana. Com o retorno, o bioma também é contemplado
Se a destruição de uma espécie pode ocorrer em pouquíssimo tempo devido à caça e ao desmatamento, o mesmo não se pode dizer da reversão desse quadro. Reintroduzir um animal em seu habitat é um trabalho que leva décadas e cujo resultado completo, provavelmente, só poderá ser testemunhado pelos discípulos de seus idealizadores, por futuras gerações. É como uma ferida que demora a cicatrizar, mas que, a cada sinal de recuperação, mobiliza e inspira. Assim tem sido com o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu).
Quarenta anos após seu último registro no estado que lhe empresta o nome, a ave está de volta ao Nordeste. A reinserção em seu ambiente de origem está ocorrendo em uma área de meio hectare cedida pela Usina Utinga Leão, em Rio Largo (AL). A empresa integra o Grupo EQM, do qual também faz parte a Folha de Pernambuco.

A ave é a única no Brasil, junto com a ararinha-azul, a existir somente em cativeiro. Desde 2001, está oficialmente extinta na natureza. Estima-se que existam somente 320 exemplares em viveiros, o que faz desse um animal raríssimo. Tão raro que muitos brasileiros mais novos nunca ouviram falar dele.

O mutum tem o nome de Alagoas por ser endêmico de lá, ou seja, só ocorre naquela região. Sua ausência por tanto tempo tem custado caro à Mata Atlântica, já que, por ser considerada de médio porte, a ave consegue carregar sementes maiores, o que ajuda a dispersá-las e garantir a reprodução de algumas espécies de vegetais. Até mesmo a cadeia alimentar de seus predadores, como gaviões e outras aves de rapina, também ficou comprometida. Seu retorno ao habitat é visto como uma chance de recomeço não só para o mutum, mas para os elos que, outrora, sustentou.

Até a chegada a Rio Largo, na última segunda-feira, os espécimes que sobreviveram à devastação tiveram uma série de desafios a enfrentar. Quase desapareceram para sempre, mesmo depois de protegidos, devido à dificuldade de reverter o processo pelo qual passavam. Nos anos 70, apenas três chegaram vivos a Minas Gerais pelas mãos do ornitólogo Pedro Nardelli, que os resgatou em Roteiro (AL). Só mais uma espécie no mundo inteiro, a de um gavião que ocorre nas Ilhas Seychelles, na África, havia conseguido se reproduzir e escapar da ex-tinção a partir de menos de cinco indivíduos vivos. Com o mutum-de-alagoas, houve até um impasse genético, já que nem todos eram considerados “puros” por terem passado por miscigenações.

Apesar do longo período das aves em criatórios, o próprio Nardelli e o presidente do Instituto pela Preservação da Mata Atlântica (IPMA), Fernando Pinto, sempre alimentaram o sonho de levá-las a seu estado natal, o que está se tornando realidade. Em Rio Largo, já há um macho e uma fêmea de quatro anos na área cedida pela usina, mais precisamente onde foi construído o Centro de Educação Ambiental Pedro Nardelli.

A ideia é transportar para o local mais três casais nos próximos seis meses e, em um segundo momento, não deixar as aves em um viveiro, como estão agora, mas, sim, soltas na natureza, avançando no programa de reintrodução. “Vejo esse momento como um símbolo, como um marco. O mutum está aí, vivo, salvo, pronto para ser conhecido pelas pessoas”, declara Nardelli, após relatar seu feito de salvação da espécie na década de 1970.

Fernando Pinto, do IPMA, diz que conhecer é o primeiro passo para preservar. O instituto foi fundado há 21 anos com a participação da Utinga Leão e de outras usinas e ficará responsável pela área do novo centro que foi erguido. “Trazer o mutum-de-alagoas para cá foi um longo processo e que ainda terá muitas etapas pela frente. Nesse momento, colocá-lo diante das pessoas é trabalhar a educação ambiental, é fazer com que os alagoanos e os brasileiros o abracem. Sem dúvida, é um exemplo inspirador até para que outras espécies tenham a mesma oportunidade”, explica.

Celebração
O retorno do mutum à Mata Atlântica foi celebrado em solenidade realizada, na última sexta-feira, na Usina Utinga Leão. Prestigiado por 200 convidados, o evento teve a presença do presidente do Grupo EQM, Eduardo Monteiro, do diretor adjunto operacional da usina, Eduardo Cunha, do governador de Alagoas, Renan Filho, e de prefeitos, empresários, ambientalistas e representantes do Ministério Público Estadual e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Na ocasião, Monteiro oficializou um convênio de comodato com o IPMA, renovando por mais 20 anos a cessão da área da usina em que o instituto tem instalações, o que assegura a continuidade dos trabalhos de preservação e educação ambiental. Já Renan Filho assinou um decreto instituindo a ave como símbolo do estado. O ato integrou as comemorações dos 200 anos de emancipação política de Alagoas.
 
O presidente do Grupo EQM defendeu a conservação do meio ambiente como visão de futuro. “É muito gratificante uma usina centenária ter o privilégio de testemunhar um ato de largo alcance, que expressa a capacidade de resistência de uma ave que, a despeito de todas as agressões que sofreu, volta ao solo desse estado”, afirmou, emocionado. “O exemplo que vemos hoje aqui mostra como a atividade econômica e o meio ambiente podem andar juntos. Investir em meio ambiente é um ato de empreendedorismo”, completou Eduardo Monteiro.

O governador Renan Filho destacou a iniciativa do Grupo EQM e também o trabalho de Pedro Nardelli e Fernando Pinto, bastante aclamados na solenidade. “Houve ciência, houve preservação ambiental, mas o que salvou essa ave foi o amor dessas pessoas”, declarou, acrescentando que, agora, o Batalhão Ambiental da Polícia Militar terá a responsabilidade de trabalhar a proteção das aves que forem reintroduzidas à natureza.
Para isso, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Alagoas vem fazendo o mapeamento das áreas da Mata do Cedro onde o mutum pode ser solto.

A partir disso, serão desenvolvidos trabalhos com comunidades do entorno para prevenir a caça a essa espécie, que é vulnerável por passar a maior parte do tempo no solo, ciscando. “Temos ciência que não adianta conscientizar pessoas de um município e não chegar até outros. Demos um passo importante. O desafio é manter o mutum-de-alagoas a salvo”, enfatizou Fernando Pinto.
Por: Luiz Filipe Freire, da Folha de Pernambuco
Fonte: www.folhape.com.br


Secult apresenta novidades sobre mecanismo de Incentivo à Cultura em AL

Reunião acontece hoje (10), no Museu da Imagem e do Som de Alagoas, em Maceió
Secult apresentará  hoje (10) à comunidade cultural os novos procedimentos de Incentivo à Cultura.   Divulgação
Texto de Daniel Borges
A Secretaria de Estado da Cultura (Secult) promove hoje (10), às 18h30, no Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa), reunião com a comunidade cultural para repasse dos novos procedimentos de Incentivo à Cultura.

Na ocasião, será apresentado o trâmite do Instrumento de Incentivo, discutida no Encontro Municipalista, em Maragogi, e com a comunidade cultural em Maceió, em agosto deste ano.

A proposta do mecanismo dispõe sobre a concessão de incentivo fiscal com o objetivo de estimular as produções culturais, apoiar, valorizar e difundir o conjunto de manifestações, contribuindo para facilitar o acesso às fontes de recurso.  Este mecanismo possibilitará que empresas apliquem parte dos impostos em ações culturais.

"Estamos construindo um caminho participativo onde a Cultura é geradora de renda para a sociedade e para o Estado. Nosso objetivo é mais uma vez dar ciência à comunidade cultural das etapas vencidas e as que ainda estão por vir”, destacou a secretária de Estado da Cultura, Mellina Freitas.


Fonte: www.agenciaalagoas.al.gov.br