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terça-feira, 20 de novembro de 2018

A MISTERIOSA INFÂNCIA DE ZUMBI DOS PALMARES


Tese de que o líder negro foi criado por um padre português chamado Antônio Melo divide opiniões

A infância de Zumbi dos Palmares é repleta de controvérsias. Foto:Pixabay
Em um final de tarde de 3 de dezembro de 1655, o padre português Antônio Melo trancou sua igreja na cidade de Porto Calvo, à época na Capitania de Pernambuco, hoje pertencente ao estado de Alagoas, e começa a atravessar a rua de terra batida que o separava da praça principal da pequena cidade. Mas, antes de chegar ao outro lado, parou, surpreendido pelo ruído de cavalos.
Homens mal-encarados e armados de flechas, espadas e pistolas apearam de seus cavalos. Junto com eles, uns poucos negros acorrentados, com feridas abertas por todo o corpo. Cabisbaixos, olhavam para o chão com olhos vazios. Já seus algozes tinham a arrogância típica dos capitães do mato, os violentos caçadores de escravos fugitivos.
O padre Melo ficou ainda mais nervoso quando viu o capitão Brás da Rocha Cardoso, herói da guerra contra os holandeses, encerrada um ano antes, que caminhava em sua direção segurando um embrulho de panos impregnado de todos os marrons da estrada. Sem beijar a mão ou pedir bênçãos, o capitão disse, seco: “Essa cria é sua, padre. Pegamos nos Palmares dos pretos e não temos serventia para ele. Faz dele o que o senhor achar melhor”.
O “Palmares dos Pretos”, sobre o qual Cardoso se referiu, era o Quilombo dos Palmares, local que foi abrigo para escravos fugidos dos engenhos de cana nordestinos. O padre desembrulhou os panos empoeirados e se compadeceu na mesma hora da criança, nascida havia poucos dias.

Mistério

Tão logo os capitães do mato e seus presos partiram, padre Antônio Melo sentou-se ao pé da igreja, olhou a criança e decidiu: “Vai chamar-se Francisco, é o santo do dia”.
O tempo passou e Francisco, já adolescente, lia, escrevia, falava latim e português, interessava-se pelas estratégias do jogo do xadrez, ajudava nas missas como coroinha e, nas palavras do próprio padre, demonstrava “engenho jamais imaginável na raça negra e que bem poucas vezes conheci em brancos”. Era um garoto brilhante, porém recluso. Vivia imerso nas letras e não tinha amigos, além do padre.
Numa manhã de domingo de 1670, Antônio Melo resolveu ir até o quartinho do garoto. Preocupara-se porque seu pupilo, sempre pontual e dedicado, não apareceu para ajudar no serviço matinal. Surpreso, constatou que Francisco havia partido com suas poucas posses.
A única coisa que deixou para trás foi um bilhete, escrito a carvão: “Padre, agradeço por cada lição que o senhor me passou, mas meu sangue clama: tenho de unir-me a meus malungos de Palmares. Francisco”. Pouco depois, Zumbi se tornaria o líder absoluto do quilombo e seria o comandante na sua derradeira batalha contra a Coroa Portuguesa.

“História bonitinha”

“É bonitinha essa história, né?”, ironiza o sociólogo e historiador Jean Marcel Carvalho França, coautor de Três Vezes Zumbi. Escrito em parceria com o também historiador Ricardo Alexandre Ferreira, o livro destrincha a construção da imagem de Zumbi ao longo de três séculos. A ironia com que França trata a versão do coroinha guerrilheiro é dirigida ao pesquisador gaúcho Décio Freitas, autor do livro Palmares, a Guerra dos Escravos, no qual ele conta a pretensa infância de Francisco-Zumbi.
“Freitas transgride uma regra do meio historiográfico: se você apresenta uma notícia muito nova, tem de trazer uma documentação coetânea, um indício que comprove as suas acepções. Sobretudo, se elas são polêmicas, se elas escapam ao que você tem de expectativa, de senso comum”, afirma França.
É aí que mora o problema: Décio Freitas morreu em 2004, sem nunca apresentar alguma prova dessa versão. Em seu livro, ele afirma que teve acesso a extensa correspondência entre o religioso de Porto Calvo e outro padre português, a quem ele contava a criação do garoto quilombola. “Nesse caso específico, Décio Freitas teria que ter trazido as tais cartas”, critica França.
A versão do Zumbi coroinha teve adeptos, como o historiador Clóvis Moura, falecido um ano antes que Freitas, que em seu Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, publicado pela Edusp, a editora da Universidade de São Paulo, publica a versão da infância do menino Francisco na companhia do padre Antônio Melo, no verbete que dedica a Zumbi. Também Jorge Landmann, que em 1998 escreveu o romance histórico Troia Negra – A Saga dos Palmares, defende que as cartas do Padre Melo existem e estão guardadas na Torre do Tombo, em Lisboa, Portugal.
O historiador Carvalho França tem uma explicação para o fato de essa versão de um Zumbi com educação formal e inteligência acima da média ter conquistado adeptos, mesmo sem apresentar evidências documentais consistentes.
Representação do Quilombo dos Palmares Wikimedia Commons

Segundo ele, na primeira metade dos anos 1970, época da publicação de Palmares, a Guerra dos Escravos, existia uma demanda por um herói romântico negro. E o protagonista de Décio Freitas é exatamente isso. “Primeiro, ele é naturalmente inteligente, esse é o traço romântico. É a primeira característica do herói. A segunda característica é a ideia de que o conhecimento ilumina. Ele vem, busca o conhecimento do branco e volta mais esclarecido. Ele leva a chama da liberdade.” Em posse dessa luz intelectual e moral, Zumbi comanda uma guerra dentro do quilombo contra o próprio tio, Ganga Zumba, depois que este assina um acordo de paz com os portugueses.
O restante da história de Zumbi é mais consensual entre os historiadores. Ele permaneceria na liderança do quilombo e resistiria a várias investidas das expedições lançadas contra a comunidade de negros libertos, na Serra da Barriga.
Em 1694, o quilombo foi invadido por forças lideradas pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. O quilombo foi desarticulado e seus moradores presos e tornados escravos. Zumbi foi ferido e desapareceu. Quase dois anos depois, acabou capturado e morto. Sua cabeça foi cortada e exposta em praça pública em Recife. Um selvagem recado para os escravos que sonhassem em rebelar-se contra seus senhores.


Em Angola, outro Francisco foi criado por um padre

O músico, ativista e professor Antônio José do Espírito Santo nunca gostou da ideia de que o sucesso do maior ícone negro da historiografia brasileira fosse atribuído a uma concessão do branco. Resolveu, então, fazer sua própria pesquisa. Voltou sobre os passos de Zumbi, num caminho inverso, de Palmares à África.
Espírito Santo não encontrou nenhuma confirmação para a tese de que Zumbi algum dia foi criado por um padre português ou que se chamou Francisco. Concluiu que a história do menino Francisco que volta para liderar os negros é bastante improvável.
Mas não impossível. Na verdade, houve de fato um menino nobre criado por um padre. Espírito Santo topou com essa história no que chama de “acaso fruto da pesquisa”: “Encontrei um manuscrito de um padre capuchinho, (Marcellino) d’Atri é o sobrenome dele. Essa figura descreve a história de um padre angolano que teria pegado o filho do rei dom Antonio I (o nome cristianizado de Vita-a-Nkanga), que perde a batalha e é decapitado”. O bebê Nkanga-a-Makaya é então levado para
Luanda, junto com o corpo do pai, e cresce sob a tutela dos capuchinhos que o batizam, curiosamente, de Francisco. Aos 20 anos, de volta ao Congo, ele afirmou que não almejava o trono porque era “português demais”.
Por Gabriel Rocha Gaspar


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Proclamação da República

Proclamação_da_República_de_Benedito Calixto 1893


A proclamação do regime republicano brasileiro aconteceu em decorrência da crise do poder imperial, ascensão de novas correntes de pensamento político e interesse de determinados grupos sociais. Aos fins do Segundo Reinado, o governo de Dom Pedro II enfrentou esse quadro de tensões responsável pela queda da monarquia.
Mesmo buscando uma posição política conciliadora, Dom Pedro II não conseguia intermediar os interesses confiantes dos diferentes grupos sociais do país. A questão da escravidão era um dos maiores campos dessa tensão político-ideológica. Os intelectuais, militares e os órgãos de imprensa defendiam a abolição como uma necessidade primordial dentro do processo de modernização sócio-econômica do país.
Por um lado, os fazendeiros da oligarquia nordestina e sulista faziam oposição ao fim da escravidão e, no máximo, admitiam-na com a concessão de indenizações do governo. De outro, os cafeicultores do Oeste Paulista apoiavam a implementação da mão-de-obra assalariada no Brasil. Durante todo o Segundo Reinado essa questão se arrastou e ficou presa ao decreto de leis de pouco efeito prático.
Os abolicionistas, que associavam a escravidão ao atraso do país, acabavam por também colocar o regime monárquico junto a essa mesma idéia. É nesse contexto que as idéias republicanas ganham espaço. O Brasil, única nação americana monarquista, se transformou num palco de uma grande campanha republicana apoiada por diferentes setores da sociedade. A partir disso, observamos a perda das bases políticas que apoiavam Dom Pedro II. Até mesmo os setores mais conservadores, com a abrupta aprovação da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, começaram a ver a monarquia como um regime incapaz de atender os seus interesses.
A Igreja, setor de grande influência ideológica, também passou a engrossar a fila daqueles que maldiziam o poder imperial. Tudo isso devido à crise nas relações entre os clérigos e Dom Pedro II. Naquela época, de acordo com a constituição do país, a Igreja era subordinada ao Estado por meio do regime de padroado. Nesse regime, o imperador tinha o poder de nomear padres bispos e cardeais.
Em 1864, o Vaticano resolveu proibir a existência de párocos ligados à maçonaria. Valendo-se do regime do padroado, Dom Pedro II, que era maçom, desacatou a ordem papal e repudiou aqueles que seguiram as ordens do papa Pio IX. Mesmo anulando as punições dirigidas aos bispos fiéis ao papa, D. Pedro II foi declarado autoritário e infiel ao cristianismo.
Ao mesmo tempo, alguns representantes do poder militar do Brasil começaram a ganhar certa relevância política. Com a vitória na Guerra do Paraguai, o oficialato alcançou prestígio e muitos jovens de classes médias e populares passaram a ingressar no Exército. As instituições militares dessa época também foram influenciadas pelo pensamento positivista, que defendia a “ordem” como caminho indispensável para o “progresso”. Desta forma, os oficiais – que já se julgavam uma classe desprestigiada pelo poder imperial – compreendiam que o rigor e a organização dos militares poderiam ser úteis na resolução dos problemas do país.
Os militares passaram a se opor ferrenhamente a Dom Pedro II, chegando a repudiar ordens imperiais e realizar críticas ao governo nos meios de comunicação. Em 1873, foram criados o Partido Republicano e o Partido Republicano Paulista. Aproximando-se dos militares insatisfeitos, os republicanos organizaram o golpe de Estado contra a monarquia.
Nos fins de 1889, sob fortes suspeitas que Dom Pedro II iria retaliar os militares, o marechal Deodoro da Fonseca mobilizou suas tropas, que promoveram um cerco aos ministros imperiais e exigiram a deposição do rei. Em 15 de novembro daquele ano, o republicano José do Patrocínio oficializou a proclamação da República.

Por Rainer Sousa, Mestre em História

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Carta de Pero Vaz de Caminha


A Carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao rei D. Manuel sobre a descoberta do Brasil, é o documento no qual Pero Vaz de Caminha registrou as suas impressões sobre a terra que depois viria a ser chamada de Brasil. Esta carta é o primeiro documento escrito da história do Brasil.
Senhor:
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado.
 Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte, haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome - o Monte Pascoal e à terra - a Terra da Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem as dez horas pouco mais ou menos.

Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si.

E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.
Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto.
Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos.
Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
Fonte: www.sohistoria.com.br